quarta-feira, 15 de novembro de 2017

“Possamos venerar Balduíno IV nos altares!” Missa de réquiem em Paris, 830 anos depois

Na igreja de St-Eugene Ste-Cecile, foi celebrada uma missa de réquiem  pelo repouso eterno do rei de Jerusalém Balduíno IV
Na igreja de St-Eugene Ste-Cecile, Paris: missa de réquiem
pelo repouso eterno do rei de Jerusalém Balduíno IV
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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A fama luminosa que envolve a figura do rei de Jerusalém Balduíno IV vara os séculos. E vem crescendo enquanto o Islã tenta sucessivos e criminosos golpes contra os restos da Civilização Cristã.

Testemunho eloquente disso foi o sermão pronunciado no sábado, 14 de março de 2015, na missa de réquiem pelo heroico rei leproso, por ocasião do 830º aniversário de sua morte.

A missa foi celebrada na igreja de Saint-Eugène-Sainte-Cécile, situada no coração de Paris, tendo o vigário, Pe. Éric Iborra, evocado a memória de Beduíno IV com estas palavras, que dispensam comentários:

“Faz o que deves, aconteça o que acontecer”. No dia 16 de março de 1185, há 830 anos, expirava Balduíno IV de Jerusalém. Ele tinha 24 anos.

“Humildemente, insensivelmente, abandonava seu corpo devorado pela doença na Jerusalém terrestre, a cuja defesa se consagrara inteiramente, para ir morar na Jerusalém celeste, residência prometida pelas Escrituras, à qual aspirava com todo o seu ser, e ali conhecer a beatitude num corpo glorioso.

“Ele, o débil, o doente, havia conseguido deter o avanço de Saladino, o maior, o mais poderoso, o mais determinado dos inimigos que a Terra Santa jamais conheceu.

“Após doze anos de reinado, ele deixava intacta a herança que lhe havia legado seu pai.

“No leito de morte, ele convocou pela última vez os grandes senhores feudais do Reino.

“O adeus a cada um foi impressionante e lancinante, pronunciado por esse ser desfigurado cujo simples semblante provocava o espanto e uma profunda compaixão.

“Em meio ao denso silêncio dos barões, um sopro de voz saía de lábios deformados com um tom tão particular e tão enternecedor, com leves defeitos de pronúncia, pedindo a todos jurar fidelidade a seu sobrinho e herdeiro, e respeitar suas derradeiras vontades relativas à regência.

Morte de Balduino IV e coroação de Guy de Lusignan, Biblioteca de Genebra, FAL_021866
Morte de Balduíno IV e coroação de Guy de Lusignan.
Biblioteca de Genebra, FAL_021866
“Tocados no mais profundo de si mesmos, transpassada sua rude carapaça por tanta grandeza e devotamento, todos juraram com emoção para comprazê-lo, e testemunharam-lhe pela última vez sua confiança, sua fidelidade e seu afeto.

“Então, Balduíno acabou de completar seu último combate.

“Foi assim que partiu Balduíno de Jerusalém, o rei leproso, ‘estoica e dolorosa figura, a mais nobre talvez da história das Cruzadas, figura cujo heroísmo, sob as pústulas e as crostas que o cobriam, continha a santidade, a verdadeira esfinge do rei francês’” [René Grousset, L’épopée des croisades, Perrin, 2000, p. 181.1].

“Uma figura desfigurada, aliás, muito esquecida – na França pelo menos –, como está esquecida também a lembrança desse reino franco da Terra Santa que seus sucessores não souberam conservar.

“Esquece-se daquele que, durante dez anos, enfrentou Saladino e o fez fugir mais de uma vez.

“Esquece-se que esse rei era um adolescente.

“Esquece-se que, durante o seu reinado, ele teve de suportar uma das provações mais severas que um ser humano possa experimentar: a da lepra.

“Esquece-se que, apesar da adversidade, seu país era próspero e as cidades, que depois foram riscadas do mapa, eram ricas!

“Lembra-se demasiadamente das falhas cometidas após sua morte e negligenciam-se as realizações notáveis de seu reinado.

“Deve-se sempre lembrar que ele emergiu vitorioso de três inimigos que o assaltaram sem descanso: Saladino, as intrigas da Corte em torno de sua sucessão, e sua doença.

“Vamos evocá-los sucessivamente.

“Saladino foi esse fanático general curdo que tomou o Egito e a Síria quando o pai de Balduíno morreu.

Balduino IV derrota Saladino perto de Ascalon
Balduíno IV derrota Saladino perto de Ascalon
“Tanto que “o reinado do infeliz jovem”, diz R. Grousset, “foi apenas uma longa agonia, mas uma agonia a cavalo, voltada contra o inimigo, que enalteceu a condição da dignidade real, do dever do cristão e da responsabilidade da Coroa nessas trágicas horas em que o drama do rei correspondia ao drama do reino” (Grousset, ibid.).

“Nunca, enquanto Balduíno viveu, Saladino conseguiu obter uma real vantagem.

“E as vitórias mais gloriosas das Cruzadas foram as do leproso adolescente.

“Coroado em 1174, ele repeliu os turcos pela primeira vez em 1176, aos 15 anos, quando acabava de atingir a maioridade.

“Em 1177, em Montgisard, quando não tinha ainda 17 anos e a situação parecia desesperada, com apenas 400 cavaleiros, ele pôs para correr um exército de 26 mil homens.

O Patriarca de Antioquia, Miguel o Sírio, narra:

“Deus, que faz a sua força aparecer nos fracos, inspirou o rei.

Montgisard
Montgisard
“Ele desceu da sua liteira, curvou-se com sua face no chão diante da Verdadeira Cruz e orou com lágrimas.

“Nessa visão, o coração dos soldados estremeceu, e eles juraram pela Cruz não recuar e considerar como um traidor quem quer que retrocedesse.

“Eles montaram seus cavalos e carregaram”.

“Foi uma vitória brilhante.

“A guerra continuou durante os três anos seguintes, culminando numa trégua infelizmente quebrada pela culpa do cruel e inconsistente Renaud de Châtillon.

“Balduíno abafou toda queixa, foi assistir seu vassalo e derrotou o sultão. E não deixou de se opor a suas renovadas ofensivas.

“Com o corpo carcomido pelas úlceras, quase cego e incapaz de deixar sua liteira, o rei galvanizou as tropas e fez o inimigo fugir, tomado de estupefação vendo a energia sobre-humana desse cadáver ambulante”.


(Fonte: Le Rouge et Le Noire, 16/3/2015)


Continua no próximo post: Balduíno IV, modelo perfeito de monarca francês, espelho do próprio Cristo




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quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Santo Eduardo o Confessor, Rei da Inglaterra – 2

Santo Eduardo III o Confessor
Santo Eduardo III o Confessor
Luis Dufaur
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Continuação do post anterior: Santo Eduardo o Confessor, Rei da Inglaterra – 1



Tempos “melhores e mais felizes da Inglaterra”

“Bem merece [Santo Eduardo] que se considere seu reinado de 24 anos como um dos melhores e mais felizes da Inglaterra.

“Os próprios dinamarqueses, donos [do território] por tanto tempo, foram submetidos para sempre no interior e contidos no exterior pela postura do valente príncipe”.4

Pois os antigos vencedores, estabelecidos na Inglaterra havia 40 anos, pretendiam ter um “direito de conquista”, mas temiam, amavam e respeitavam o novo soberano. Aos poucos foram totalmente integrados na população do país.

Enquanto a Divina Providência zelava pelo reino, uma ameaça vinha da Noruega. O rei Sweyn quis reconquistar o trono inglês que seu pai, Canuto, antes ocupara.

Santo Eduardo colocou o país em estado de alerta, e esperou o pior. Mas um ataque do rei da Dinamarca à Noruega fez abortar o premeditado plano de invasão da Inglaterra.

Mais tarde Suenon, rei da Dinamarca, preparou-se também para reconquistar a Inglaterra.

Dotado do dom da profecia, Santo Eduardo estava um dia assistindo à Missa quando entrou em êxtase, derramando copiosas lágrimas. Terminado o Santo Sacrifício, seus nobres lhe perguntaram o que sucedera.

O santo revelou então que vira Suenon morrendo afogado no mar, no momento de embarcar para a Inglaterra. O que livrou o país de nova invasão.

Pouco mais tarde, em 1046, piratas dinamarqueses sitiaram Sandwich e depois as costas de Essex. Mas a pronta intervenção dos oficiais de Eduardo forçou-os a afastar-se do país.

Santo Eduardo empreendeu apenas uma guerra, para recolocar Malcolm, filho de Duncan, no trono da Escócia. Duncan fora assassinado e despojado por Macbeth, o usurpador cuja infâmia foi imortalizada por Shakespeare.

“Não se alegrava com a abundância”

Santo Eduardo III o Confessor e Sao Francisco de Asis, Londres
Santo Eduardo III o Confessor
e São Francisco de Assis, Londres
De acordo com seu primeiro biógrafo, Santo Eduardo “era pobre nas riquezas, sóbrio nas delícias, humilde na púrpura e, sob a coroa de ouro, desprezador do mundo.

“Apreciava tão pouco as riquezas, que seu tesouro parecia mais o erário dos pobres e a coisa pública de todo mundo.

“Não se alegrava com a abundância, nem se entristecia na necessidade. Era sobretudo liberal com as igrejas e mosteiros”,5 e a essa liberalidade se deve a fundação da grande abadia de Westminster, que seria o panteão dos reis e dos grandes homens da Inglaterra.

Os antigos cronistas colocam Santo Eduardo entre os melhores reis de seu tempo, dizendo que foi bom, piedoso, compassivo, pai do povo, protetor dos débeis, amigo mais de dar do que receber, de perdoar mais do que castigar.

Para atender às imposições dos que o rodeavam, Eduardo teve que contrair matrimônio. Sua escolha recaiu sobre Edite, filha do infame Godwin.

Ao contrário do pai, ela era piedosa, generosa, com uma delicadeza de espírito que a levou a aceitar a proposição do rei de viverem como irmãos, porquanto Eduardo havia feito voto de castidade.

Código: “Leis de Eduardo, o Confessor”

“Estando despido de ambição pessoal, o único objetivo de Eduardo foi o bem-estar de seu povo. Ele anulou o odioso ‘danegelt’ (tributo que se pagava anualmente aos dinamarqueses), o qual continuava a ser pago desnecessariamente.

“E, apesar de pródigo em esmolas para os pobres e para fins religiosos, fez seu próprio patrimônio real suficiente, sem impor ao povo novas taxas.

“Tal era o contentamento provocado pelas ‘leis do bom Santo Eduardo’, que sua aplicação foi repetidamente pedida pelas futuras gerações, quando se viram oprimidas”.6

Com efeito, “Santo Eduardo tornou-se sobretudo célebre por suas leis. Ele adotou o que havia de útil nas que existiam então, e fez as mudanças e adições que julgou necessárias.

“Depois, seu código tornou-se comum em toda a Inglaterra sob o nome de ‘Leis de Eduardo, o Confessor’, título pelo qual elas se distinguem das que sancionaram os reis normandos. Elas fazem ainda parte do direito britânico [século XIX], excetuando-se alguns pontos que sofreram mudanças.

“Reconhecem poucos crimes puníveis com a pena de morte e as multas são determinadas de maneira fixa, não dependem da vontade dos juízes. Elas proviam à segurança pública e garantiam a cada particular a propriedade que possuía”.7

Santo Eduardo faleceu no dia 5 de janeiro de 1066 e foi canonizado por Alexandre III em 1161.

Seu “sagrado corpo foi levantado da terra 36 anos depois de sua morte, achando-se tão inteiro e fresco, com todos os membros tão flexíveis, como se estivesse vivo, e com os trajes tão novos, como se acabassem de lhos fazer”.8

___________
Notas:
1. E.F. Saxton, Canute, The Catholic Encyclopedia, CD Rom edition.
2. Cfr. Edelvives, El Santo de Cada Dia, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1955, vol. 5, pp.433 a 441.
3. Fr. Justo Perez de Urbel, in Año Cristiano, Ediciones Fax, Madri, 1945, vol. IV, p. 96.
4. D. Próspero Guéranger, El Año Litúrgico, Editorial Aldecoa, Burgos, 1956, vol. V, p. 607.
5. Urbel, op. cit. p. 97.
6. G.E. Phillips, Saint Edward, the Confessor, The Catholic Encyclopedia, CD Rom edition.
7. Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo 12, p. 319.
8. Pe. José Leite, Santos de Cada Dia, Editorial A. O., Braga, 1987, tomo III, p. 167.

(Autor: Plinio Maria Solimeo, CATOLICISMO, outubro 2012



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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Santo Eduardo o Confessor, Rei da Inglaterra – 1

Santo Eduardo III o Confessor St Peter and St Paul, Eye, Suffolk
Santo Eduardo III o Confessor. St Peter and St Paul, Eye, Suffolk
Luis Dufaur
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Nascido por volta do ano 1000, Santo Eduardo era filho do rei Etelredo II, que governou a Inglaterra dos anos 978 a 1016, e de sua segunda esposa, Ema, filha do Duque da Normandia.

Em 1013, Sweyn, rei viking da Dinamarca, invadiu a Inglaterra e apoderou-se do trono, repetindo o feito de um antecessor seu. Etelredo fugiu então com sua família para a Normandia.

Porém, com a morte de Sweyn no ano seguinte, voltou e reconquistou o poder. Por pouco tempo, pois faleceu em 1016.

Subiu então ao trono Edmundo, meio-irmão de Eduardo, que continuou a luta contra os invasores.

Mas foi assassinado, apoderando-se do trono o dinamarquês Canuto. Este pediu Ema em casamento, estipulando que os filhos deste matrimônio seriam seus herdeiros, em detrimento de Santo Eduardo e de seu irmão, que haviam ficado na Normandia.

Canuto, cognominado “o Grande”, reinou na Inglaterra durante 19 anos. A figura desse grande conquistador não deixa de chamar a atenção:

“intrigante, ambicioso e violento, Canuto no entanto expiou suas antigas crueldades por um cristianismo não sem valor.

Chegou como invasor e cruel destruidor e, por uma mudança de temperamento tão notável quanto longa em seus efeitos, permaneceu para governar em justiça e paz um povo que ele desposou completamente”.1

Entra em cena então outra figura típica desses tempos violentos e semi-bárbaros: Godwin. Pastor nas selvas de Warwik, ganhou o favor de Canuto por ter salvado a vida de um chefe dinamarquês perdido no interior das montanhas.

Levado à Corte, logo se tornou um guerreiro destemido por sua coragem e ousadia. Obteve o título de conde e o governo de uma província. Doravante sua ambição não conheceu limites nem escrúpulos.2

Quando Canuto faleceu, em 1036, seus Estados foram divididos entre seus filhos: Sweyn ficou com a Noruega, Hardicanuto com a Dinamarca, e Haroldo, filho ilegítimo, com a Inglaterra. Nessa ocasião, Eduardo e Alfredo voltaram à Inglaterra.

Como Godwin tinha ajudado Haroldo a estabelecer sua autoridade, obtivera também o favor desse rei. Aconselhou-o então a atrair à Corte os dois príncipes, seus rivais na coroa, para livrar-se deles.

Ema conseguiu segurar junto a si Eduardo. Mas Alfredo, interceptado por Godwin, teve os olhos furados e foi relegado a um mosteiro, onde faleceu em virtude dos ferimentos. Santo Eduardo voltou então para a Normandia.

Depois de muitas vicissitudes, o trono

Santo Eduardo III o Confessor, catedral de Newcastle
Santo Eduardo III o Confessor, catedral de Newcastle
Tendo crescido no palácio do Duque da Normandia, Eduardo soubera preservar-se da corrupção e dos vícios que reinavam naquela corte, esmerando-se desde a infância a praticar as virtudes contrárias a esses vícios.

Era dotado de um caráter reflexivo e silencioso, no qual adivinhavam-se as marcas do infortúnio. Procurava conversar com homens de piedade e saber, sendo possuidor de sabedoria e gravidade superiores à sua idade.

Distinguia-se nele em particular uma doçura admirável, fruto de uma humildade profunda e de uma caridade que abarcava todos os homens.

Seu único passatempo era a caça com cães e falcões, na qual se exercitava para um futuro incerto.

Quando soube da morte de Canuto em 1035, Eduardo reuniu uma frota de 40 navios e cruzou o estreito, desembarcando em Southampton.

Mas não encontrou na Inglaterra o apoio de que necessitava. Sua própria mãe declarou-se contra a empresa. Eduardo foi obrigado a voltar para a Normandia.

Em 1039 faleceu Haroldo. Fartos de viver sob a dominação estrangeira e conhecedores da fama das virtudes de Eduardo, todos os ingleses concordaram em restituir-lhe o trono de seus pais.

Eduardo foi assim sagrado Rei da Inglaterra, no Domingo de Páscoa do ano de 1042. Já tinha 40 anos, 30 dos quais passados no exílio.

Ele soube, de um lado, aproveitar os ensinamentos da vida, principalmente os da desgraça, e de outro lado procurou esquecer o passado, preocupando-se somente em se tornar um verdadeiro pai para seus súditos.

“Uma vez firmado seu poder, Eduardo consagrou todos os seus esforços para realizar o ideal do príncipe cristão: propagar a Religião, devolver seu vigor às antigas leis, diminuir as cargas do povo, conservar a paz. Tais foram os cuidados principais de seu governo”.3


Continua no próximo post: Santo Eduardo o Confessor, Rei da Inglaterra – 2



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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Balduíno IV: o rei-herói entre decadentes

Renaud de Chatillon, turbulento e belicoso vassalo
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continuação do post anterior: Balduíno IV: o santo rei leproso que espantou a Saladino



Nesse momento reapareceu, libertado dos cárceres muçulmanos, o antigo príncipe de Antioquia, Renaud de Châtillon.

Logo recomeçou suas aventuras, assaltando uma importante caravana de peregrinos com destino a Meca.

Esse ato rompia a trégua assinada por Balduíno IV e Saladino e ofendia as convicções religiosas dos muçulmanos, a cujos olhos o atentado afigurava-se monstruoso.

Intimado pelo rei a devolver os prisioneiros e o produto da pilhagem, ele recusou-se com arrogância, tornando assim evidente a incapacidade do doente de se fazer obedecer.

Imediatamente Saladino acorreu do Egito e invadiu a Galiléia, incendiando e devastando as colheitas, capturando rebanhos e semeando pânico por toda parte.

Renaud de Châtillon suplicou ao rei que salvasse seus feudos. Balduíno concedeu, vencendo Saladino em julho de 1182.

Em agosto, o infatigável maometano tentou tomar Beyrouth por uma ação combinada por terra e mar.

Uma vez mais Balduíno afastou o perigo. Impediu Saladino de se apoderar de Alepo e conduziu uma expedição até os subúrbios de Damasco.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Balduíno IV: o santo rei leproso que espantou a Saladino

Balduíno IV na batalha de Montgisard, detalhe.
Charles Philippe Larivière (1798-1876)
Luis Dufaur
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continuação do post anterior: Balduíno IV: o rei cruzado que atingido pela lepra venceu Saladino e o Islã




Um novo cruzado — Filipe de Alsácia, conde de Flandres e parente próximo de Balduíno IV — acabava de desembarcar. O pequeno rei Balduíno esperava muito desse apoio.

Estava claro que era necessário ferir Saladino no coração de seu poderio — isto é, no Egito — se se quisesse abalar a unidade muçulmana. Era isso, precisamente, o que propunha o basileus, imperador de Bizâncio.

O Egito, uma vez conquistado em parte, Damasco não poderia deixar de subtrair-se ao poder cambaleante de Saladino.

Mas Filipe de Alsácia opinava de outra forma. Ninguém poderia impedi-lo de ir guerrear na Síria do Norte, e, o que era mais grave, de levar consigo parte do exército franco.

Saladino respondeu invadindo a Síria do Sul. Balduíno reuniu o que lhe restava da tropa, desguarneceu audaciosamente Jerusalém e partiu para Ascalon, onde Saladino investia. Este, logo que foi informado, subestimou seu adversário. Ele acreditava que a queda de Ascalon era uma questão de dias, e marchou sobre Jerusalém com o grosso de seu exército.

Balduíno compreendeu suas intenções. Saiu de Ascalon, fez um longo périplo e caiu repentinamente sobre as colunas de Saladino, em Montgisard.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Balduíno IV: o rei leproso de Jerusalém que venceu o Islã

Vitral do rei Balduino na Basílica de Saint-Denis, França
Luis Dufaur
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Balduíno IV (1161 – 1185) foi o último rei de Jerusalém com espírito de Cruzada. Guy de Lusignan, seu sucessor, foi um interesseiro, sob cujo reinado a Civilização Cristã perdeu a posse da Cidade Santa.

Na história das Cruzadas, nada é mais emocionante que o reinado doloroso de Balduíno IV.

Nada, entre os vários exemplos famosos, pode atestar melhor o império de um espírito de ferro sobre uma carne débil.

Foi um rei sublime, que os historiadores tratam só de passagem, o que faz perguntar por que até aqui nenhum escritor se inspirou nele, exceto talvez o velho poeta alemão Wolfram von Eschenbach.

Nem o romance nem o teatro o evocam, entretanto sua breve existência cheia de acontecimentos coloridos forma uma apaixonante e dilacerante tragédia.

O destino sorria à sua infância. Robusto e belo, ele era dotado da inteligência aguçada de sua raça angevina (de Anjou).

Tinha sido dado a ele por preceptor Guilherme de Tiro, que se tomou de “uma grande preocupação e dedicação, como é conveniente a um filho de rei”. O pequeno Balduíno tinha muito boa memória, conhecia suficientemente as letras, retinha muitas histórias e as contava com prazer.

Um dia em que brincava de batalha com os filhos dos barões de Jerusalém, descobriu-se que tinha os membros insensíveis:

“Os outros meninos gritavam quando eram feridos, porém Balduíno não se queixava. Este fato se repetiu em muitas ocasiões, a tal ponto que o arquidiácono Guilherme alarmou-se.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Alfredo o Grande, o admirável Carlos Magno inglês

Alfredo o Grande, estátua de bronze em Winchester
Alfredo o Grande, estátua de bronze em Winchester
Luis Dufaur
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“Henrique com seis mulheres se casou. Uma morreu, uma viveu, de duas se divorciou e de duas a cabeça cortou”, cantava-se na Inglaterra.

Na história da Inglaterra há uma involuntária simetria entre dois polos.

De um lado, Henrique VIII (1491-1547), o sinistro fundador do anglicanismo.

Do outro, do lado bom, um cruzado, um santo: Alfredo, o Grande (849-899).

Em 2015, uma pesquisa da Associação dos Escritores Históricos daquele país considerou Henrique VIII o pior monarca de sua história.

Isto não passou despercebido das esquerdas, que lhe prestaram eloquente “homenagem” póstuma em desagravo pelo ato de vandalismo perpetrado contra uma estátua dele na noite de Ano Novo de 2007, quando perdeu o braço direito e seu machado.

Após ambos serem substituídos, a estátua voltou a ser vandalizada, perdendo novamente seu machado.

No outro polo está alguém muito diverso: Alfred, o fundador da Inglaterra e seu protótipo, muito menos conhecido do que merece.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Clóvis, Rei dos francos, instrumento da Providência Divina

Clovis I, representado no "Reccueil des rois de France". Du Tillet,1550
Clóvis I, representado no "Recueil des rois de France". Du Tillet,1550
Luis Dufaur
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Dentre as hordas de bárbaros que investiram contra as possessões romanas do Ocidente na Europa central, destacaram-se os francos, povo guerreiro e valente.

Ora unindo-se às tropas imperiais, ora combatendo-as, tornaram-se tão poderosos, que a filha de um de seus reis, Eudóxia, veio a casar-se com o Imperador Arcádio.

Com a queda do Império Romano em 476, os francos dominaram o norte da Gália; os godos, o sul; os borguinhões, as duas margens do Ródano, restando ainda, entre os rios Sena e Loire, remanescentes do Império sob o governo de Siágrio.

Um dos grandes chefes francos foi Childerico I (458-481), que se casou com Basina da Turíngia.

Tiveram um filho são e robusto a quem deram o nome de Clóvis. Estava ele destinado a mudar o curso da história da Gália (França) e, por conseguinte, da Europa.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Santo Estevão, a monarquia apostólica da Hungria
e o Reinado de Nossa Senhora

Santo Estevão I Confessor (967-1038), rei e apóstolo da Hungria. Estátua em Budapest
Santo Estevão I Confessor (967-1038), rei e apóstolo da Hungria. Estátua em Budapest
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Santo Estevão Confessor (967-1038), rei e apóstolo da Hungria, (inglês, Enciclopedia Católica, espanhol).

A oração da post-comunio na missa diz que o zelo do rei em “propagar e fortalecer a fé do país lhe valeu a realeza celeste”.

Ele instituiu Nossa Senhora como padroeira da Hungria.

Faleceu em 1038, no dia da Grande Senhora, denominação, em virtude de um edito do santo rei, que os Húngaros dão a Nossa Senhora.

Foi pai de Santo Américo (1007-1031), príncipe modelo de pureza habitualmente representado portando couraça e um lírio na mão.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

D. Pelayo e a gloriosa Reconquista espanhola (2)

Don Pelayo, Covadonga
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 Continuação do post anterior



Invasão moura na base da traição

Musa bem Nusayr, com ciúmes dos sucessos de seu capitão Tarif, resolveu também atravessar o Estreito à frente de poderoso exército, com o qual foi conquistando, uma após outra, Sevilha, Mérida, Saragoça e as atuais províncias de Málaga e Granada. Toledo já fora dominada por Tarif no ano de 713.

Juntando infâmia à traição, os partidários do último rei Vitiza foram entregando suas cidades ao invasor.

E assim foram caindo, como cartas de baralho, todas as regiões da Espanha visigótica, restando somente poucos núcleos independentes da autoridade muçulmana nos Montes Cantábricos, nas Vascongadas e junto aos Pireneus.

No ano 716, a maioria da população era composta de hispano-romanos cristãos, aos quais os mouros não obrigavam a se converter ao Islã, porque sua religião era também do Livro Revelado.

Mas tinham que pagar impostos ao invasor, sob pena de escravidão e confisco de bens.